terça-feira, 1 de setembro de 2009

Seja Vida


(Ivana Almeida) - Reflexão
A vida é bem mais do que todos aqueles clichês que tentam definí-la. É um tanto de diversão, de experiência, de criações, de amores, de casos, de partes perdidas... a vida ainda continua sendo mais que tudo isso. Mas, sem dúvida, a melhor sequência é quando seu verbo começa a ser conjugado em todos os tempos: viver os medos, as angústias, o friozinho na barriga do primeiro encontro, o beijo natural, as sortes, as paixões. Quando isso realmente acontece, a alma fica tão extasiada de qualquer sentimento que invade os espaços do consciente e deixa tudo com um ar de satisfação e de tarefa cumprida. Apenas seja intenso.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Pelos verbos que passei


(Ivana Almeida)

Eu só precisava ficar sozinha, sem a gravidade para me deixar rente ao chão. Apenas queria ir embora, sorrir um pouco mais e saber que a noite tudo estará sereno, pronto para um verdadeiro descanso. Enquanto todos progridem em auto-conhecimento, estou vagando dentro de um eu que parece indecifrável. Sou o avesso da minha consciência, e trocando em miúdos, não consigo ser exatamente aquilo que preciso e assim acabo me perdendo em tantas conclusões frustradas.
As palavras conseguem me desenhar quase que como uma fotografia, e quem diria que um dia eu as estaria procurando para essa função...

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A medida certa


(Ivana Almeida)


Certamente não seríamos por muito tempo. Aparentemente estávamos fortes, queríamos tudo o que fomos, mas restaram tão poucas escolhas que, pela falta de uma sensata, desistimos.
Eu queria permanecer desde que me lembro sentir algo, mas a história não acompanhou o passar da vida, e foi ficando para trás, e foi estando imóvel do lado de fora das sensações diárias. É como se tivesse passado longo tempo e, ao voltar para casa, o sentimento tivesse ficado na mesma prateleira empoeirada que estavam todos os argumentos que precisei para pô-lo lá. Não foi fácil. Foram tantas as lembranças. Mas no profundo, foi o melhor que fizemos: foram tantos os desgastes.
Eu não preferi acabar, mas também não preferi deixar tudo como estava. Caramba! Numa explosão de exclamações eu admito: nós fomos intensos e eu nos amava por isso! Mas não sobrou muito do que sentíamos ser.
Nós nos colocamos sobre tantas razões que hoje eu preciso de algo menos que sentimentos para poder prosseguir e não querer esquecer tudo e pedir mais uma chance à dois.

domingo, 12 de julho de 2009

Permanente

(Ivana Almeida)

É leve, é sublime, é a melhor sinestesia: a de está em par com o Criador. O coração despe o oco e veste-se de um sorriso irresistível, de uma vontade de ser o que foi planejado na eternidade e de um amor que ultrapassa o natural - as gotas de vazio são preenchidas por um oceano de certezas. Se o Universo parece grande diante do ser humano, ainda maior é o amor de Jesus que nos escolheu – que somos tão pequenos - para receber seu sangue. E tanto nos foi oferecido... até próprio tempo foi criado para sabermos o quanto falta para estarmos ao Seu lado! Não daria para escolher outro, senão esse Amor.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Infinitivo


(Ivana Almeida)
Não era bem a melhor primavera. De um lado, meus olhos testemunhavam à nudez da natureza, a manifestação peculiar do tango dos pássaros e a orquestra dos grilos; de outro, uma solidão, filha da mãe! Não deveria ter permissão de ser único nessas situações. Sou a imagem desbotada que passeia pela cores naturais. Meus pensamentos alcançam dimensões absurdas: o existir da natureza e o meu Ser – mas parece que eu apenas consigo alcançar a realidade nessa loucura de ser alguém. Preciso de bem mais que o concreto; quero flutuar em todos os planos. Eu sinto que existo, mas estou repartido em frações de horas, de gostos, de amores, de pesadelos e de constantes rumores sobre mim. Por dentro estou rasurado, marcado pelas conseqüências das minhas inconstâncias, e minhas paixões, escassas pela falta de uso. Como usaria de sentimentos para conseguir ser em outra pessoa, se toda vez que penso, a solidão me nega essa possibilidade? Preciso saber quem sou para sobreviver em alguém.

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Desmedido


(Ivana Almeida)


“Não quero mais discutir contigo, isso acaba com qualquer possibilidade de uma noite tranqüila. Mas se o faço tantas repetidas vezes, é por querer ter a certeza de que, por esta hora, eu não sairei da sua mente. Esse meu sentimento devora tudo, até a irresoluta razão que passeia dentro de mim. Nós precisamos nos merecer mais – entenda, tudo sempre será exatamente igual! Sinto falta do nosso tempo e da nossa maneira, de tudo o que pressentia ser e do que já virara fato, eu não vou te esquecer! Agora estou exausta do amor: escrevê-lo está sendo fatigante e senti-lo, então, quase que enlouquecedor, mas é o único que alcança a minha arrazoada vontade de estar perto de ti.”

Essa foi parte da crônica do meu casamento. Ainda hoje estamos juntos, e parece improvável que haja um fim nisso tudo; vai-e-vem e a gente sempre acaba na mesma sina: nós dois.

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Amor em exposição


(Ivana Almeida)

Da vida provei o melhor: os amores! Foram horas, dias e anos de amor perdido, desde a sedução ao mais entranhável sentimento – e como fui feliz! Claro, tive alguns desprazeres, um ou outro sofrimento, mas nada comparado aos dias de glória. Mulheres de todas as formas, de tamanhos e de perfumes, sempre satisfeitas com as horas incalculáveis de agrado com o seu amante de passagem; fui conhecedor absoluto do corpo e da profundidade da alma feminina.
Fui. Hoje apenas coleciono nas margens de um caderno as fulanas tantas que passaram por mim. Estou velho e apaixonado - tem estado mais absurdo na vida de um ser vivo (ou ao menos pensante)? Uma Maria qualquer acabou tornando-se centro de mim, sendo a Maria Carlota da minha vida. Foi uma paixão tão inesperada que senti medo: medo do desconhecido, medo de admiti-lo, medo de torná-lo real, medo de tirá-lo de mim, medo do que não conseguia decifrar com minhas próprias experiências. Sabia que não estava pronto para um amor maior do que o concreto que eu sempre tive em mãos, era esse abstrato que me transtornava.
Quando nossos corpos se encontraram pela primeira vez, não era matéria ali: eram dois corações pulsantes, com sístoles e diástoles ritmadas pela musicalidade da valsa romântica. Nas minhas anotações no tal “caderno das recordações”, não consegui deduzi-la apenas em uma linha, mas em várias, e nas entrelinhas acabei por descrever o próprio Amor.
Minha mente não aceitou o fato de o meu coração se desprender e ter suas próprias decisões, e acabou fazendo com que me afastasse dos encantos da Carlota. Teria sido esta uma solução para continuar nos meus encontros noturnos, mas o maior problema foi uma correspondência simples e direta: “Você não ama sozinho, há mais que agonias para nos oferecermos. Sua muita, Maria Carlota”. Aquelas palavras, juntamente com as lembranças, desmoronaram em mim, e sua ausência foi preenchida gradativamente, até ficar extasiado dela própria.
Rendi-me à nossa união, e consequentemente a abdicação de outras aventuras.
Meu caderno de vida terá sempre essa página; esse rabisco de realidade que mais são versos de melodias romanescas. Das resoluções fotográficas, o amor venceu as lentes dos detalhes e se transformou claro e preciso.